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Refém a três.


Elas eram mais que irmãs. Eram gêmeas. Univitelinas e iguais. Mas como a maioria das gêmeas, eram também opostos, como fogo e água. Quando as vi passar pelo corredor da faculdade, meu coração paralisou. Uma já seria o bastante, mas duas… E tão belas, tão suaves… Tinham um bronzeado saudável de quem é jovem e quatro olhos de um verde misturado ao azul. “Parecem miragens”, pensei enfeitiçado.

Duas semanas após aquela visão efêmera das jovens, as encontrei em uma festa. Eu estava para me formar dali a dois meses em Direito, e minha turma não perdeu a ocasião para comemorar, bebendo os últimos goles de um tempo inesquecível. Eu ria e conversava com meus colegas, enquanto entornávamos os copos, as garrafas e o que mais aparecesse na nossa frente. Mas meu olhar estava além, fixado nas duas irmãs, sentia-me hipnotizado, refém da visão das belas.

Tomei coragem e chamei uma delas para dançar. Foi o inicio.

Seus nomes eram Beth e Mara. Soube depois que a minha escolhida para dançar tinha sido Beth. Começamos naquela noite, o que em pouco tempo se tornou um namoro. Beth era uma boneca de porcelana, doce, carinhosa e parecia estar sempre pedindo desculpas ao mundo por algo que não havia feito correto. Essa característica de sua personalidade me enternecia. Sua beleza, fui reparar depois, era delicada e quase inatingível. Uma princesa na torre. Usava sempre vestidos floridos, até os joelhos, os quais lhe davam um ar pueril e vontade de abraçá-la. Cheirava a jasmins.

Ela se entregou a mim no dia da minha formatura, e eu me sentia realizado, afinal tinha uma linda namorada e havia sido efetivado em meu estágio. Aluguei um apartamento e a vida parecia algo simples, perfeito e sob controle.

Até o dia em que fui convidado para jantar na casa dela, conheci então a outra gêmea, Mara. Faltou-me a respiração no dia, e hoje as palavras não fariam jus ao que senti.

O coração perdeu o rumo das batidas, e eu só queria olhá-la mais e mais. Seus cabelos eram brilhantes, seus olhos safiras, sua voz rouca e sedutora, seu corpo um convite e seu sorriso…não saberia descrever, talvez… devorador. Quando a vi andar, pensei num bicho. Ela tem aquele jeito de quem é dona de si, segura, firme. Falava com todos na mesa, quase ao mesmo tempo e tudo parecia girar em torno dela. Soube naquele momento que era ela que eu queria, e não a irmã.

Mas não demorou dez minutos para perceber que as irmãs se adoravam, estavam sempre juntas, trocavam olhares e cochichos ao pé do ouvido. “Elas são unha e carne”, me disse a mãe mais tarde.

Tentei me resignar, mas o fato é que Beth passou a parecer prêmio de consolação, ficou aos meus olhos apática, sem sal, insegura demais e até chata. Eu só pensava em Mara, na sua exuberância, no seu cheiro, na sua conversa divertida, e por fim…na impossibilidade de tê-la.

Nas tardes de domingo, sentávamos todos na sala da casa delas para ver televisão, eu não tirava os olhos das pernas douradas de Mara que se cruzavam no sofá, pra esquerda, pra direita, esquerda, direita… Ao meu lado Beth puxava o vestido florido para cobrir os joelhos, dizia ter joelhos finos. Os da irmã, apesar de idênticos, pareciam lindos, torneados, harmônicos…Tinham almas muito diferentes, e que refletiam em suas imagens.

O tempo foi passando, eu perdia o interesse por Beth, mas não acabava o namoro, porque temia parar de ver Mara.

Certa noite chuvosa, cheguei na casa delas para pegar Beth, iríamos ao cinema. Encontrei Mara no sofá, com um dos vestidos floridos de Beth. Por um instante confundi as duas, fui dar um rápido beijo em quem eu pensava ser Beth, mas antes das nossas bocas se tocarem, senti o cheiro, era Mara, mas não parei, a beijei.

Ela deixou, entrou no jogo. O beijo que seria breve, tornou-se demorado, depois faminto, depois indecente, quis tirar sua roupa, tocar sua pele, sabia que estava acobertado pelo álibi da confusão dos vestidos, e se ela topasse eu iria até o fim. Ela agarrava-se a mim, gemendo baixinho e me chamando de cafajeste. O beijo não deixava dúvidas, ela também queria. Como que saindo de um transe ela interrompeu o que parecia um sonho e disse: “Seu tolo, sou a Mara, agora este será nosso segredo”. Respondi: “Vou acabar com sua irmã, quero você”. Ela se assustou, e falou perto da minha boca de uma forma provocadora e deliciosa: ” Nunca, nunca podes falar sobre isso com ninguém. A única forma de me ter é ficando com Beth, se você acabar com ela, nunca mais olho na sua cara”. E se foi.

Num primeiro momento, não consegui alcançar a dimensão do que ela me dizia. Sentia apenas vontade de beijá-la e beijá-la. Depois pensei na“minha Beth”, e de que não queria magoá-la, nunca quis. Posso jurar!

No dia seguinte, Mara foi à minha casa. Entrou dizendo que precisávamos conversar. Não pude evitar a ideia de abraçá-la em um lugar tão protegido como meu apartamento. Fui logo a tomando nos braços e conclui: “A gente conversa depois”. Fomos para o quarto, era o que ela queria também, e aquele primeiro encontro durou o dia todo. “Foi coisa de novela, coisa de filme, coisa de pele!”- Pensei piegas e apaixonado. Depois que ela se foi, entendi que estava perdido, acabado, e refém daquela situação.

Dali por diante, eu passei a ter duas mulheres. Beth de dia e Mara de noite. Não posso negar que esse triângulo é patológico, é perverso, mas me inebria. Tenho uma louca que me enfeitiça à noite, e um anjo inocente de dia, que só quer que eu a proteja e lhe dê atenção.

Então vivo assim, eu e minhas gêmeas, perdidos no mar alto e intenso das paixões atormentadas. Por mim,serei delas até morrer…ou, até quando minha insanidade permitir.

(Texto de A.B.Tavares)

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1 Comentário

  1. Helio disse:

    Uma boa estória.

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