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A puta dissimulada.

café2

Escrever na internet é engraçado. Você tem que facilitar, pois não sabe quem vai ler. Simplificar e usar palavras fáceis ajuda bastante no entendimento, mas às vezes não tem jeito como é o caso do título da crônica de hoje.

Dissimulada? O que é dissimular? Para você não ter que ir no Google consultar, eu já fiz isso. Significa ocultar, disfarçar ou fingir. Isso posto, vamos ao que interessa.

Ela era bonitona de rosto e tinha o corpo bem delineado. Veio do interior, caiu naquele turbilhão da cidade grande e, como muitas outras, queria vencer. Até aí nada demais, só que existem pessoas que escolhem atalhos, querem caminhos mais fáceis para alcançar seus objetivos. E mulher bonita em país machista não dá outra, aparece logo uma fila enorme de homens.

E com ela não foi diferente. Arrumou logo um banqueiro do centro-oeste que comprou seu passe, criando todas as facilidades possíveis. Ele, claro, casado, ficava bastante na sede do banco no cerrado, mas a visitava de tempos em tempos. Ela, já instalada num belo e bem localizado apartamento que ele lhe dera de presente. Fora a polpuda mesada, eles, sempre que podiam, frequentavam os melhores restaurantes. Nas viagens dele a negócios, para o exterior, ela ia a tiracolo. Numa dessas viagens, do alto dos seus 22 anos e nas poucas vezes que trepavam, aplicou o velho golpe e voltou grávida. Com o nascimento do filho fechava-se o ciclo do plano perfeito.

Sua vida de ‘programas’ continuou, havia aprendido bastante e o nível era alto. Fez seu pé de meia. A sociedade é hipócrita e costuma fechar os olhos a certas coisas. Todos sabiam, mas ela não se assumia como puta, como se todos em volta fossem cegos.

Enquanto era bonita e gostosa sempre tinha ‘cliente’, mas chega aquele ponto em que o panorama muda, o vazio e insatisfação se instalam, e a vida dupla não preenche mais. Sim, ao longo de todo esse tempo de putaria sempre esteve namorando, embora seus namorados não soubessem da sua profissão. Ela escondia sua ‘profissão’, mas eles acabavam descobrindo e terminavam.

Vou dar uma parada e fazer um pequeno intervalo para frisar que cada um faz o que quiser, contanto que se assuma e seja responsável pelos seus atos. Não é preciso colar um cartaz na testa dizendo ‘Sou puta’. Digo isso depois de ter conhecido alguns museus de prostituição em Amsterdam, onde a profissão é legalizada. Lá nenhuma puta tem vergonha ou medo de revelar sua profissão: são limpas, fazem sexo seguro e cobram pelos serviços prestados. Ninguém perturba ninguém e a vida continua. Pelo que sei aqui no Brasil existe pouca informação e pequenas ONGs e associações que as ajudam.

Voltando à nossa amiga, o ocaso a fez entrar num processo irreversível. Na sua solidão, tentou entender o que se passou, entrando num circuito de drogas, depressão, terapia e alguma espiritualidade. Com o filho criado, casado e morando longe, acorda todos os dias solitária e nostálgica. Será que valeu? Passou por tantos e tantas e hoje fica passeando dentro de seu apartamento, esperando alguma coisa acontecer, só que nada acontece.

Resta saber se caso ela tivesse se assumido, tivesse sido mais corajosa e tivesse saído do armário na juventude, falando sempre a verdade, a sua vida hoje seria melhor e mais saudável.

Ou não. Será?

 

 

 

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